domingo, 3 de agosto de 2014

purafectude

e tu, que é pura afecção,
e teu corpo, que não é mais como o corpo dos outros
teus olhos são maiores, tua pele, mais extensa, quase infindável: infinita.
nessa boca que me esqueço, me aprofundo, e que esqueço, por vezes,
esses braços estendidos, do tamanho de um mundo, um mundo de dois a dois

e tu, que é pura afecção
teu corpo é contágio, teu corpo é aberto, não fechado
porque eu abro esse teu corpo, te rasgo, abro inteiro, para ver o que tem dentro
para sentir o que tem dentro
mas não há nada, há só afecção
há só eu e tu

teus olhos não são mais como antigamente
não são mais olhos fechados em si, nas suas órbitas,
eles se abrem quando eu chego, se abrem para mim, e se derramam em minhas mãos
se derramam em beijos

não são mais olhos dentro de um corpo que meu olho acessa de longe, na sua completude
não há mais completude, há só incompletude
há um vazio, como aqueles joguinhos em que falta uma peça
em vão, os blocos, os dígitos vão se movimentando na tentativa de completude, mas nunca se chega a tal, mas é aí que ocorre o movimento, o fluxo, o fluido: o jogo e a brincadeira permanecem latentes, e nunca findam

espero que a gente não finde
a gente, que é pura afecção.

"esse pequeno poema pra ti"

sinto teu cheiro no meu braço,
e me revelo todo.

performando um conceito

vou criar, eu mesmo, um conceito de performance
de performance como brincadeira
como para tirar o tédio do dia a dia, para fazer e ocupar o ócio
performance para aquele que não tem nada pra fazer, pros ociosos, deprimidos e oprimidos
vou criar performance, inventar um conceito, ler mil livros e rastejar sobre eles
performance para minar a ansiedade
performance que existe só porque existe ansiedade
performance que existe pra ansiedade, como vício
sem desculpas, ou como desculpa
como confissão ou confusão
do amor chorado, do amor vivido, do amor estraçalh

terça-feira, 22 de julho de 2014

falemos dele nela

daí que olho no corpo meu corpo
vejo os hematomas, mas nem lembro das dores
parece mesmo que essas dores são para dizer que o corpo está aqui, que ele existe, que ele resiste e que ele re-existe. re-existir é existir a cada um, a cada momento, a cada dor. ficam os hematomas. as dores passam, por hora voltam, e o corpo permanece: re-existe.

daí que olho no corpo os hematomas. talvez os ache bonito. o corpo reclamou. é preciso mais cuidado. é preciso mais carinho. mas não pára. ou pára, ou pára tudo.

desrespeito os novos acordos de ortografia da língua que diz portuguesa. pára, como acento mesmo mesmo: continuo com o acento. falo brasileiro tropical(ia). falemos doutras línguas. 

sábado, 21 de junho de 2014

espero ver-te

na onda do teu cabelo, eu me perdi
e tu me fizestes me perder também
nos bicos dos teus peitos, ao abrir tua camisa, e desvendar teu saco
te vi nu, me visses nu, e nus nos abraçamos, nos demos

me perdi nas palavras que dissesses
e no "eu quero te ver de novo" eu acreditei
talvez possa acreditar de novo, não sei [mais]
quero-te por perto, bem perto, muito parte
carne e carne, unha e unha, cheiro no cangote

nesse meio pouco da gente, de nós
do pouco e do muito que temos a oferecer mutuamente

não tem medo; não te arrecifes: eu cuido da tua dor, e tu cuidas da minha
pra sarar juntos, delicados, e amados

espero te ver.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

[poderia ser.]

tomava banho
um gota passou por meio do canto do olho
achei que fosse uma lágrima

[poderia ser.]

domingo, 1 de junho de 2014

não sê-lo, eis a questão

[lembrando de Rodrigo Vaz]

nesse dia, eu senti empatia por quem é considerado "louco"
pelos olhos, pela reclusão, por aquela porta-vala que se abria e para onde iam, eu pensei que iria também,
que poderia ir

e, no meio dessas poucas falas e explicações, de pouca instrução, de sacolas de industrializados, eu me senti pertencente a esse espaço e temeroso por isso, ao mesmo tempo em que os via tão ignorantes de si mesmos, suscetíveis ao apelo, à interpelação do outro: "ele é louco, minha senhora".

e louco tenho me sentido, e tenho mais medo, mesmo, é da normalidade. ser normal é linha tênue, é pânico, é medo de não ser normal. tenho empatia pelos loucos porque, quem sabe, devo ter empatia por mim e pelos outros.

não ser normal.
talvez nunca tive tanta ideia do que isso, meu querido, queria dizer.