terça-feira, 22 de julho de 2014

falemos dele nela

daí que olho no corpo meu corpo
vejo os hematomas, mas nem lembro das dores
parece mesmo que essas dores são para dizer que o corpo está aqui, que ele existe, que ele resiste e que ele re-existe. re-existir é existir a cada um, a cada momento, a cada dor. ficam os hematomas. as dores passam, por hora voltam, e o corpo permanece: re-existe.

daí que olho no corpo os hematomas. talvez os ache bonito. o corpo reclamou. é preciso mais cuidado. é preciso mais carinho. mas não pára. ou pára, ou pára tudo.

desrespeito os novos acordos de ortografia da língua que diz portuguesa. pára, como acento mesmo mesmo: continuo com o acento. falo brasileiro tropical(ia). falemos doutras línguas. 

sábado, 21 de junho de 2014

espero ver-te

na onda do teu cabelo, eu me perdi
e tu me fizestes me perder também
nos bicos dos teus peitos, ao abrir tua camisa, e desvendar teu saco
te vi nu, me visses nu, e nus nos abraçamos, nos demos

me perdi nas palavras que dissesses
e no "eu quero te ver de novo" eu acreditei
talvez possa acreditar de novo, não sei [mais]
quero-te por perto, bem perto, muito parte
carne e carne, unha e unha, cheiro no cangote

nesse meio pouco da gente, de nós
do pouco e do muito que temos a oferecer mutuamente

não tem medo; não te arrecifes: eu cuido da tua dor, e tu cuidas da minha
pra sarar juntos, delicados, e amados

espero te ver.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

[poderia ser.]

tomava banho
um gota passou por meio do canto do olho
achei que fosse uma lágrima

[poderia ser.]

domingo, 1 de junho de 2014

não sê-lo, eis a questão

[lembrando de Rodrigo Vaz]

nesse dia, eu senti empatia por quem é considerado "louco"
pelos olhos, pela reclusão, por aquela porta-vala que se abria e para onde iam, eu pensei que iria também,
que poderia ir

e, no meio dessas poucas falas e explicações, de pouca instrução, de sacolas de industrializados, eu me senti pertencente a esse espaço e temeroso por isso, ao mesmo tempo em que os via tão ignorantes de si mesmos, suscetíveis ao apelo, à interpelação do outro: "ele é louco, minha senhora".

e louco tenho me sentido, e tenho mais medo, mesmo, é da normalidade. ser normal é linha tênue, é pânico, é medo de não ser normal. tenho empatia pelos loucos porque, quem sabe, devo ter empatia por mim e pelos outros.

não ser normal.
talvez nunca tive tanta ideia do que isso, meu querido, queria dizer.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

do verbo lindar

patenteei o verbo lindar.
agora é assim:

eu lindo e tu lindas.
ele e ela linda. nós lindamos, e vós: lindais.
eles lindam.

eu lindo e tu linda, nós lindamos.
eu lindo, tu lindo e tu vindo.
tu lindo, eu vindo e eu indo.

vem me lindar
lindo eu, lindo tu
acabei de lindar tu
vem me lindar também
eu te lindo: tô te lindando

tu já me lindaste
e, lindado, permaneço aqui

um'bora lindar
pra lindar o mundo
lindar a gente
vamos lindar

lindar vem do latim lindare, que, segundo o Houaiss de 2007, significa "deixar puro, empurecer, do puro" e, em outro campo semântico "permanecer, ficar, deixar estar". no século XVI, referiu-se grosso modo, na releitura romântica de epopeias gregas, ao predicativo da personagem principal feminina que só se deixava ficar por causa de sua pureza e da pureza de seus sentimentos. a ideia sujeira era, então, aplicada à ideia de passageiro, de nomadismo e também de invisível e de reversível. desde então, o verbo entrou em desuso. talvez graças ao aplicado recurso de desvinculação, na literatura, após a onda romântica, das noções de pureza e de permanência, ou ainda, quando a noção de pureza vai perdendo a potência com a decadência do discurso cristão, e sendo sendo reapropriada por outros discursos, como os foucaultianos e rabelaisianos (ver Foulcault, M. e Rabelais apud Bakhtin, M.). 

segunda-feira, 31 de março de 2014

suspiros de chuva

Daí que do outro lado, a uma rua de distância, ele se ancorou na varanda de casa e olhou. Olhou pro céu, olhou pra rua, olhou também pro lado de cá. Não sei bem se olhou para cá, mas, de algum modo, senti seu olhar invadir a minha casa, adentrar os muros do condomínio, se espreitar pela abertura da minha varanda e chegar à minha sala. E emplacar, também, nos meus olhos.

E ele se deu assim. Jogou o corpo quase para fora de casa: os olhos voltados para a rua, o rosto quase do lado de fora, assim como suas mãos. É uma varanda ampla, que sai quase toda para a rua. Aqui é assim, as casas pequenas ampliam-se, tornam-se duplex, triplex, ganham varandas amplas ou se tornam mesmo grandes caixas fechadas. Ou permanecem, como o passar dos anos, do mesmo jeito como foram construídas.

Por um momento, pensei se fôssemos amantes, e o quanto me angustiaria olhá-lo assim, de longe, sem poder tocando, tocando-o só com os olhos. Ele casado, na casa dos pais, com filho, e meu amante, de vir em casa, mas me olhando, agora, de longe. Suspiraria, fingiria que não olhara para olhar de novo e vê-lo e amá-lo de longe. Ele estaria se dando a mim de sua casa, a uma rua de distância. E eu aqui.



Mas esses sonhos narrativos se desfizeram logo quando ele entrou em casa, adentrou o escuro da porta da cozinha (a varanda é também os fundos da casa em cima). Percebi que era só imaginação, que ele não era quem eu pensava. Mesmo assim, suspirei.

sexta-feira, 14 de março de 2014

bises bises à bientôt

Je préfère maintenaint t'ecrire avant qu'il soit trop tard. Je voudrais te dire autant des choses, mais surtout que J'ai appris à parler ta langue. Donc je peux me communiquer, me corrépondre avec toi, parler de mes chansons, de mes amours, parler de gens que je rencontre partout.

Tu me manques. C'est lá où je me pers. Je t'aime.

À bientôt, bises,
Merson.