sábado, 6 de agosto de 2011

Perdas, danos e términos

A gente sempre sai calejado de um término desses. Términos de namoro. Sempre.
Parece que o corpo recebeu uma surra, e a gente fosse obrigado a se reerguer a duras custas. Sentimentos, afetos, moral, saúde, desejo, autoestima, tudo sai mudado de uma situação dessas. E parece que nunca vai acabar, que o desejo nunca vai acabar, que o anseio e a ansiedade em tudo dar certo não vai acabar, que a solitude não acaba. E que você nunca vai se apaixonar por ninguém de novo. Ou, ao menos, não quer, para não ter que passar por isso de novo mais à frente.

Na verdade, acabar significa recomeçar (coisa mais clichê, né?). Falo isso não apenas da relação entre ex-namorados - ela pode existir, ou não, podem se afastar ou querer se tornar amigos para sempre. Mas das relações consigo mesmo: amadurecer, criar equilíbrio, uma base para se manter: autosegurança. E mais ainda, perder o medo de perder essa segurança, ou se tornar sereno ao ponto de não se preocupar mais com isso, de perder.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Chuva de Jambo


Em tempo de chuvas, jambo nas ruas. Seria de se pensar que o que chove não é água, mas jambos. Como se o que despencasse o tempo todo, como se aquilo que ouvíssimos bater no telhado de madrugada ou no zinco da cobertura da garagem fosse jambos, um grupo de jambos, uma colméia de jambos, meteoros de jambos, que exalam no ar um cheiro doce e vermelho, e cujas polpas, pisadas e amassadas nos pontos de ônibus e calçadas de frente de casa, formam um tapete branquíssimo-avermelhado-com-pitadas-de-verde-das-folhas-caídas.
Se nossa lógica analisa, reflete e observa as ações humanas e da natureza através de causas e consequências, se lemos os acontecidos através das marcas por eles deixadas, afirmo e reitero que choveu jambo na rua de cima da minha casa.

domingo, 17 de julho de 2011

Quem somos nós, agora?

Quando você acaba um relacionamento, as coisas se desbancam.
Quando se está namorando, há sinais de carinho, atenção e companheirismo, tais quais, ligar todo dia, falar do cotidiano, se ver assim que possível, conversar, conversar, conversar, e trepar. Também são sinais de afeto, de proximidade, e, por que não, de amizade.
Quando se acaba um relacionamento, e ambos decidem permanecer amigos, há um série de transições a serem feitas, sendo a primeiras delas a questão do afeto. Há, sim, tesão, mas ele deve ser deslocado para um carinho, um afeto mais ameno, menos um desejo que uma amizade. No entanto, talvez o pior esteja nas pequenas coisas: deixar de se ver ou se ver bem menos a partir de então, não se ligar todos os dias, não adentrar o cotidiano e o íntimo do outro. São vontades inerentes do afeto, mas que são castradas para que você mesmo não se magoe. O momento não é fácil.
Quando a gente senta para conversar, quem somos nós?

terça-feira, 12 de julho de 2011

Poe mão

Enrolo meu braço em tua cintura
E isso já é poesia.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Línguas ou Sob Encomenda

Se aquelas paredes falassem
Se aqueles desenhos falassem
Se as chuvas e as gotas falassem
Se a luz amarela do poste que pousava sobre tua pele branca falasse
Se o pouco espaço entrecolchões falasse
Se o toque de peles suadas e desnudas falasse
Se o desejo pudesse falar
Se meu corpo, em suas reações, ereções e desejo, falasse
Se teu corpo, solto, descomplexo e enverso falasse

Haveria muitas línguas, linguagens, palavras e palavrões
Traduzidos em sussurros inescutáveis àquela hora da noite

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Fim de ciclo: crise

A gente se forma. Depois de muito esperar, a gente se forma.
Mas nosso corpo e nossa vida não são acostumados com muita liberdade. Assim que nos vemos em um não-fazer obrigatório, com tempo livre e sem muitas certezas futuras - trabalho nunca é certeza para ninguém -, a gente pára. Param os desejos, as esperanças, o palpitar do coração. Vem a ansiedade, o anseio, a raiva, a vontade de não se sabe o quê. Vontade de dormir, e dormir, e dormir...
Acabar um curso é fechar um ciclo. Um ciclo que, para mim, durou quatro anos, marcados por namoros, brigas, incertezas, firmeza de postura, problemas familiares, encontro com amigos importantes e movimentação política. Tudo isso em torno da universidade, das pessoas que a fazem e dos amigos que lá fiz. Deixar isso de uma hora para outra não é nenhum pouco fácil. Também não é nem um pouco fácil ficar à mercê do mercado de trabalho, algo tão insólito e traiçoeiro como uma gelatina cheia de corantes e calorias. Novos mundo se abrem, ou é você que volta àquele velho mundinho, que você havia esquecido ao adentrar os muros da universidade.
O que deixar? O que ficar? Não sei. Não sei de muita coisa. Deixa eu ficar só, só um pouquinho. Sem ninguém, sem redes sociais, sem o mundo. Deixa eu.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Autoreferência Gay

Então, acabei de ver o vídeo "Não Gosto dos Meninos", do Andre Matarazzo e do Gustavo Ferri, e fiquei pensando alguma coisas. Dá uma olhada e a gente conversa.


Lembro que uma vez um amigo (gay) meu falou que estava cansado das bee porque todas eram muito autoreferentes. Fiquei pensando na hora, mas acabei guardando. De fato, toda bicha é meio autoreferente, seja da história de vida, seja da roupa que usa, seja da performance que atua, seja dos vídeos que vê no Youtube, seja pelo que faz, enfim. E vi que, nesse filme, rola muito isso também. Claro que a proposta é fazer um vídeo com estórias de vida de personagens gays, baseado no projeto It Gets Better. Nesse sentido, o filme segue legal a proposta e atinge seu público e seu alvo, sendo de grande importância sobre a conscientização do ser gay.
Mas acho que está na hora de ir mais além. Deixa de ser autoreferente. Ok, você sofreu, brincava de boneca com as meninas da sua turma de escola, sua mãe não te aceitou, você agora tem um relacionamento incrível e o melhor é se aassumir. As estórias são bem parecidas. Porém, acho que está na hora de pensar na relação com os demais gays. Como você lida com os outros gays? Como você lida com uma trava da favela? E com um gay negro? Você não gosta daquelas bichas afeminadas? Você é passivo ou ativo? Por quê? Não sei bem explicar, mas é tentar ir além de si mesmo, do próprio umbigo, da própria história de vida, e ir além.
Parece-me que com essa autoreferência gay, todos são bonitinhos e sofridos, e que todos os conflitos se resolvem porque se assumiram ou tem hoje um relacionamento estável e consegue se manter bem. Talvez uma coisa meio "o sonho da casa própria" da classe média. E os outros, e as demais estórias, à galera que passa um sufoco nos interiores do Brasil pra se assumir, quem precisa o tempo todo se afirmar na favela, aqueles que só conseguiram se segurar na prostituição. Temos que pensar como nos relacionamos com os outros gays. E refletir isso tudo.