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sábado, 9 de junho de 2012

tu e tal

Algumas coisas são da ordem do indizível.
Às vezes, do invisível.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Para você, o que você gosta.

Sempre quis isso.

***



Morar numa casa (apê) que mais parece um sobradinho, com janelas largas, ruas calmas, vizinhos antigos, que cantam despretensiosamente cânticos à Virgem Maria e que fazem festa e se divertem aos domingos. Gosto das plantas. Gosto das varandas. E mais: gosto de plantas nas varandas. Varandas quadradinhas, que chamam, que convidam a dar um passeio numa tarde em que o sol se põe calorosa e lentamente. Pela manhã, é ele quem nos acorda, entrando discreta, pontual e gradativamente na sala, pelas janelas brancas de dimensões largas. Gosto de pombos que passeiam todo o dia acima do prédio: a gente escuta seus grunhidos e seus voos, mas eles sempre voltam.

Gosto de me sentir assim, livre. Gosto de (na)morar com gente boa, que imita mães, pais e irmãos. Mas que também são mães, pais irmãos, amantes e amigas. Gosto da sala espaçosa, para receber amigos, e da cozinha espaçosa, para conversar enquanto se cozinha pra depois se comer. Gosto também dos pequenos espaços, do quarto, do banheiro. Mas principalmente das janelas brancas de grandes dimensões abertas, de onde nem sempre - ou quase nunca - se transpassa um leve vento.

Gosto da mudança, da adaptação, dos desencontros, das deixas, dos abandonos, dos desesperos, Gosto do riso, do choro, mas mais das gargalhadas, Gosto da lua, do violão, da rua de baixo passando carros, dos ônibus que pego e carrego, Gosto das dramatizações, dos desvios, dos percursos poéticos: dos atentados terroristas poéticos, Gosto das imitações e das graças, ainda que não se seja Nossa senhora, Gosto da Marisa (a Monte), gosto - e me sinto contemplado - quando escuto Diariamente

***

Para pular onda, litoral
Para a melhor azeitona, iberia
Para que fiquem prontas, paciência
Para servir uma sopa, graus
Para abrir a rosa, temporada
Para aumentar a vitrola, sábado
Para os dias de folga, namorado
Para a mulher que aborta, repouso

Mais:

Para o telefone que toca
para a água lá na poça
para a mesa que vai ser posta
para você o que voce gosta
diariamente

sábado, 17 de março de 2012

Corte.

As primeiras palavras de D. Mirinha, além do formal, foram sobre os redemoinhos. "Tem que saber para que lado eles vão pra poder cortar."
Ali. Fortaleza. Joaquim Távora. Antônio Furtado, uma casa além da 161. Só disso que sei.

***

Atrás de mim [dava pra ver do espelho], uma pequena janela, daquelas amplas, largas e brancas, símbolos de trinta ou vinte anos atrás do Joaquim Távora, uma luz de fim de tarde que tardava em perder da sua beleza, uma sala improvisada. Ela, ali, com uns óculos grandes, respiração forte, e uma atenção meio caseira, materna. Pouco profissional. Nem me preocupava em lhe dizer o corte, queria que ela o identificasse, o escolhesse. Queria que ele afetasse meu cabelo e minha imagem, uma marca. Mas a roupa dela me inquietava, o rosa da blusa me chamava atenção. E um olhar cuidadoso que buscava pra que lado meus quatro redemoinhos escapavam. As mãos eram pesadas, mas como mãos pesadas de mãe sabem tocar, sem muito carinho, mas com afeto. Ali, não havia pretensão, havia um corte, uma relação, um desprendimento.

***

Você usa mais pra cima, ela perguntaria mais tarde, Quando ele está curto, sim. Como estava naquele momento. Por uma hora, me senti parecendo o Tintin, com aquele topete ondulado, ela fazia parecido com isso, se aproveitando do meu redemoinho da frente. Vi que, melhor que um pente, eram aquelas escovas de cerdas grossas. Agradeci a D. Mirinha, e penso em voltar lá quando meu cabelo incomodar de novo.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Espelho, chão, sexo e dor


Agoniado, sentou-se só, no chão, em frente ao espelho, que estava apenas escorado em algumas caixas de papelão com livros, no quarto de trás do apartamento. A pouca luz, fraca, deixava pouco a ver de seu rosto, que andava inchado por aqueles dias. Sentou-se como criança, em frente de si mesmo, em frente à própria imagem.
Ali pôde perceber durante alguns dias que a dor que sentia não era plena. Surtava alto, subia as paredes, mas ali estava ele, em frente a seu corpo, seu corpo material, inteiro, um rosto que não reconhecia a si mesmo, nas suas ações e decisões. É como se o acompanhasse, em seus olhos, o olhar de outros, de outrem, de pessoas mais velhas, que passaram na sua vida e lhe marcaram de uma maneira ou outra. Via-se ainda criança, por mais que ali, em frente ao espelho, entre as pernas, se protuberasse uma série de pêlos. Era velho, tinha barba, mas carregava consigo, nos espaços que ocupava, o olhar, a avaliação, a aprovação dos outros. E, por isso, não conseguia viver sozinho, solitário. Precisava conversar, beber, sair, namorar, para esquecer que carregava tantos olhares e anseios. 



***


Se o telefone tocasse, possivelmente, seria ele. Gostaria e ao mesmo tempo não, que não fosse ele quem telefonasse. Gostaria que outras pessoas, amigos, telefonassem, e que se desacostumasse com os telefonemas dele. Telefonemas de bom dia, para falar besteira, para passar o tempo, para dar boa noite, para mandar abraço, para mandar beijo, para dizer que gosta muito, para dizer que ama, para resolver compromissos, pensar projetos, averiguar a vida do outro, com quem está e saiu, se vai ou não para casa, reclamar da vida, reclamar do outro na vida, ser grosso, brigar só para depois ligar novamente e pedir desculpas, e ligar mais vezes. E isso porque eram ex-namorados.
Ainda assim, deixou que a ansiedade o tomasse: a espera pelo seu telefonema. Outrora, havia já tomado a corajosa decisão de deletar o número do ex-parceiro do celular, para que nunca mais pudesse telefonar. Ora, meio turno depois, ia até a lista de últimas chamadas, e lá figurava o bendito número. Bastava apenas editar e salvar – novamente – na sua lista de contatos. Feito!



***


E se dissesse que ainda o amava? Enfim, já havia dito isso uma porção de vezes, ele sabia, se quisesse, já teria voltado. Mas então, o que fazer, se não fazia mais sentido repetir que o amava? Bastava considerar-se, de corpo e alma, solteiro, ir à Parada (Gay) não com receio de ver o amigo com seu novo amigo amante, mas para conhecer outras pessoas, outros homens, fazer novos amigos. “Atoro fasser amissades”, parafrasearia sua amiga russa, que viera à cidade no verão passado.

domingo, 25 de setembro de 2011

Pós-modernidade, lucubrações e Kundera

Quando você sente as costas endurecerem, uma vazio enjoado no estômago e uma melancolia serena, é sinal de que está amadurecendo.

Gostaria de fotografar corpos nus, meu íntimo, mas meu íntimo não é só meu.

***


O mais estranho no acabar de um relacionamento é que você tem que se acostumar que o corpo do outro não está mais com você. O corpo do outro pode estar com outro, e outros, mas não com você. Isso pode gerar duas coisas. Ou você sente ciúmes e morre em pensar no outro com um outro corpo, se deliciando com um outros corpos, lambendo, sentindo, cheirando e se divertindo com um corpo outro, ou você abre a mente e pensa que o sexo não necessariamente precisa ser recluso a duas pessoas, entendendo-o como fluido, como fluxo, que vai e vem de uma pessoa a outra, sem fronteiras, ou limites. Meio pós-moderno mesmo.

Embora sinta aquele, muito fortemente, prefiro que esse aconteça comigo. Prefiro acreditar que meu corpo é livre e são, aberto a fluxos, a fluidos, que posso sentir prazer com mais de uma pessoa, que mais pessoas podem se divertir com meu corpo, e eu, me divertir com o delas. Sentir que vivemos menos dicotomicamente, e mais em rede, em processos de idas e vindas, que não são estanques em si. Que não preciso estar recluso a alguém, seu sêmen, seu suor, suas curvas morenas e peludas, ainda que deliciosas. Mas que outros corpos podem me atiçar o desejo e fazer eregir minha genitália.

Acho que as teorias pós-modernas fazem a gente pensar melhor sobre si, a vida e as relações humanas. Viva Milan Kundera!

sábado, 6 de agosto de 2011

Perdas, danos e términos

A gente sempre sai calejado de um término desses. Términos de namoro. Sempre.
Parece que o corpo recebeu uma surra, e a gente fosse obrigado a se reerguer a duras custas. Sentimentos, afetos, moral, saúde, desejo, autoestima, tudo sai mudado de uma situação dessas. E parece que nunca vai acabar, que o desejo nunca vai acabar, que o anseio e a ansiedade em tudo dar certo não vai acabar, que a solitude não acaba. E que você nunca vai se apaixonar por ninguém de novo. Ou, ao menos, não quer, para não ter que passar por isso de novo mais à frente.

Na verdade, acabar significa recomeçar (coisa mais clichê, né?). Falo isso não apenas da relação entre ex-namorados - ela pode existir, ou não, podem se afastar ou querer se tornar amigos para sempre. Mas das relações consigo mesmo: amadurecer, criar equilíbrio, uma base para se manter: autosegurança. E mais ainda, perder o medo de perder essa segurança, ou se tornar sereno ao ponto de não se preocupar mais com isso, de perder.