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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Ruídos e ruíres

E, por essas horas, não há muito o que fazer.
Há que se esperar. Esperar sem ansiedade, mas com vontade. Aproveitando cada momento, cada cheiro, cada esperança, cada decisão. Cada amigo, cada companhia, cada sinceridade. Cada ação, cada momento, cada um. Esperar.
Fico aqui esperando e, por horas, o tédio me toma. Mas não, não fico mais ansioso esperando esse tédio passar, ou esperando que passe, ou buscando mil coisas que o façam passar, ficando tão ansioso novamente porque ele não passa, e assim num ciclo sem fim. Não. Pois espero o tédio tomar conta, e, se acontecer o inesperado, será extraordinário, se não, estaremos no seguir cotidiano da vida. Fico em tédio, leio, converso, durmo, como, anseio, penso, desejo, vontade, queria, você.

Vamo seguindo, seguindo em frente, seguindo andando, tateando essa rede que nos vem, nos toma e, por vezes, nos convem, e nos co-movem. Deixa os estímulos aparecerem, desejarem, os afetos ruírem e se refazerem, porque assim eu volto novo, desejado e com vontade. 

sábado, 9 de junho de 2012

tu e tal

Algumas coisas são da ordem do indizível.
Às vezes, do invisível.

domingo, 27 de maio de 2012

Xêiros

Sabe cheiro?

Cheiro que impregna na barba.
Cheiro que faz barulho.
Cheiro que é familiar, que lembra.
Cheiro que cheira, que esfrega, que roça.
Cheiro de pele. Cheiro de pêlo. Cheiro de cu.
Cheiro que assanha, que desgrenha, que impregna ainda mais.
Cheiro que se dá, que conquista e que se conquista.
Cheiro suave, não mais bruto. Cheiro que recupera e contextualiza o olhar.
Cheiro de perto, de poros, de suor, dos cravos e espinhos. Cheiro de pele, de barba.
Cheiro que delicia, que se olha.
Cheiro que dá, e que aconchega. Cheiro de suvaco, na mão, na pele, na boca. Na barba.
Cheiros, cheiro.

Cheira

terça-feira, 17 de abril de 2012

Assim que acordo,
abro as janelas.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Para você, o que você gosta.

Sempre quis isso.

***



Morar numa casa (apê) que mais parece um sobradinho, com janelas largas, ruas calmas, vizinhos antigos, que cantam despretensiosamente cânticos à Virgem Maria e que fazem festa e se divertem aos domingos. Gosto das plantas. Gosto das varandas. E mais: gosto de plantas nas varandas. Varandas quadradinhas, que chamam, que convidam a dar um passeio numa tarde em que o sol se põe calorosa e lentamente. Pela manhã, é ele quem nos acorda, entrando discreta, pontual e gradativamente na sala, pelas janelas brancas de dimensões largas. Gosto de pombos que passeiam todo o dia acima do prédio: a gente escuta seus grunhidos e seus voos, mas eles sempre voltam.

Gosto de me sentir assim, livre. Gosto de (na)morar com gente boa, que imita mães, pais e irmãos. Mas que também são mães, pais irmãos, amantes e amigas. Gosto da sala espaçosa, para receber amigos, e da cozinha espaçosa, para conversar enquanto se cozinha pra depois se comer. Gosto também dos pequenos espaços, do quarto, do banheiro. Mas principalmente das janelas brancas de grandes dimensões abertas, de onde nem sempre - ou quase nunca - se transpassa um leve vento.

Gosto da mudança, da adaptação, dos desencontros, das deixas, dos abandonos, dos desesperos, Gosto do riso, do choro, mas mais das gargalhadas, Gosto da lua, do violão, da rua de baixo passando carros, dos ônibus que pego e carrego, Gosto das dramatizações, dos desvios, dos percursos poéticos: dos atentados terroristas poéticos, Gosto das imitações e das graças, ainda que não se seja Nossa senhora, Gosto da Marisa (a Monte), gosto - e me sinto contemplado - quando escuto Diariamente

***

Para pular onda, litoral
Para a melhor azeitona, iberia
Para que fiquem prontas, paciência
Para servir uma sopa, graus
Para abrir a rosa, temporada
Para aumentar a vitrola, sábado
Para os dias de folga, namorado
Para a mulher que aborta, repouso

Mais:

Para o telefone que toca
para a água lá na poça
para a mesa que vai ser posta
para você o que voce gosta
diariamente

segunda-feira, 2 de abril de 2012

E se quando ele voltar?

E se quando ele voltar houver fogos de artifício?
E se quando ele voltar houver braços abertos para lhe receber?

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Serei eu maníaco por afeto?

Sinto que o afeto, por si só, afeta a minha vida. O afeto, a idéia de afeto, o sentido, o conceito, e o próprio sentir. Sei que gosto e que amo, e isso me instiga, me leva, me supera e me afeta. Sinto, talvez seja demais sensível, ou egoistamente sensível.
Não consigo fugir dessa idéia de afeto. Se as pessoas sentem e se afetam entre si, e em suas leituras e ações conseguem abstrair-se disso, eu não o posso, eu não o consigo. Desde os meus pensamentos às minhas ações, passando pelas minhas leituras, estadas e dormidas, eu sinto, sinto que gosto e que me afeto todo o tempo.

Foto de Emerson Cunha. Modelo: Aretha Paiva.


Posso estar aprisionado a isso, tentar negar ou subverter. Ou posso aceitar e tomar isso dentro da minha poética. Sentir, e usar esse afeto para pensar a pornografia, o vídeo, o desejo suscitado pelas imagens e pelas performances, sempre sentindo e desejando saber a partir do que sinto e também desejo. Produzir fotos, imagens, intervenções, instalações e performances que coloquem em voga esse meu sentir, ou o meu não sentir. Talvez seja micro demais, mas é um micro poderoso, que se apodera de mim, e acho que me toma: influencia e orienta minhas ações, meus pensamentos, meu desejo.

Acho que o sexo toma uma posição importante na minha vida, e, nesse sentido, eu confundo sexo e afeto. É assim mesmo? É normal querer fazer sexo todo o tempo, e querer fazer sexo com carinho todo o tempo? É normal buscar isso, querer isso, desejar isso?