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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Ruídos e ruíres

E, por essas horas, não há muito o que fazer.
Há que se esperar. Esperar sem ansiedade, mas com vontade. Aproveitando cada momento, cada cheiro, cada esperança, cada decisão. Cada amigo, cada companhia, cada sinceridade. Cada ação, cada momento, cada um. Esperar.
Fico aqui esperando e, por horas, o tédio me toma. Mas não, não fico mais ansioso esperando esse tédio passar, ou esperando que passe, ou buscando mil coisas que o façam passar, ficando tão ansioso novamente porque ele não passa, e assim num ciclo sem fim. Não. Pois espero o tédio tomar conta, e, se acontecer o inesperado, será extraordinário, se não, estaremos no seguir cotidiano da vida. Fico em tédio, leio, converso, durmo, como, anseio, penso, desejo, vontade, queria, você.

Vamo seguindo, seguindo em frente, seguindo andando, tateando essa rede que nos vem, nos toma e, por vezes, nos convem, e nos co-movem. Deixa os estímulos aparecerem, desejarem, os afetos ruírem e se refazerem, porque assim eu volto novo, desejado e com vontade. 

sábado, 9 de junho de 2012

tu e tal

Algumas coisas são da ordem do indizível.
Às vezes, do invisível.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Assim que acordo,
abro as janelas.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Para você, o que você gosta.

Sempre quis isso.

***



Morar numa casa (apê) que mais parece um sobradinho, com janelas largas, ruas calmas, vizinhos antigos, que cantam despretensiosamente cânticos à Virgem Maria e que fazem festa e se divertem aos domingos. Gosto das plantas. Gosto das varandas. E mais: gosto de plantas nas varandas. Varandas quadradinhas, que chamam, que convidam a dar um passeio numa tarde em que o sol se põe calorosa e lentamente. Pela manhã, é ele quem nos acorda, entrando discreta, pontual e gradativamente na sala, pelas janelas brancas de dimensões largas. Gosto de pombos que passeiam todo o dia acima do prédio: a gente escuta seus grunhidos e seus voos, mas eles sempre voltam.

Gosto de me sentir assim, livre. Gosto de (na)morar com gente boa, que imita mães, pais e irmãos. Mas que também são mães, pais irmãos, amantes e amigas. Gosto da sala espaçosa, para receber amigos, e da cozinha espaçosa, para conversar enquanto se cozinha pra depois se comer. Gosto também dos pequenos espaços, do quarto, do banheiro. Mas principalmente das janelas brancas de grandes dimensões abertas, de onde nem sempre - ou quase nunca - se transpassa um leve vento.

Gosto da mudança, da adaptação, dos desencontros, das deixas, dos abandonos, dos desesperos, Gosto do riso, do choro, mas mais das gargalhadas, Gosto da lua, do violão, da rua de baixo passando carros, dos ônibus que pego e carrego, Gosto das dramatizações, dos desvios, dos percursos poéticos: dos atentados terroristas poéticos, Gosto das imitações e das graças, ainda que não se seja Nossa senhora, Gosto da Marisa (a Monte), gosto - e me sinto contemplado - quando escuto Diariamente

***

Para pular onda, litoral
Para a melhor azeitona, iberia
Para que fiquem prontas, paciência
Para servir uma sopa, graus
Para abrir a rosa, temporada
Para aumentar a vitrola, sábado
Para os dias de folga, namorado
Para a mulher que aborta, repouso

Mais:

Para o telefone que toca
para a água lá na poça
para a mesa que vai ser posta
para você o que voce gosta
diariamente

segunda-feira, 2 de abril de 2012

E se quando ele voltar?

E se quando ele voltar houver fogos de artifício?
E se quando ele voltar houver braços abertos para lhe receber?

quarta-feira, 21 de março de 2012

Hora Hora

Há uma hora em que você começa a se despedir.

Começa a se despedir de antigos projetos. Começa a se despedir das lembranças, das memórias - ou as guarda num lugar mais escondido, alimenta de vez em quando, e guarda de volta na gaveta.

Há um momento em que você começa a se despedir das antigas amizades, dos sonhos, de alguns desejos. É hora de mudar, de criar novas esperanças, novas expectativas. Novas localidades, talvez. É hora de mudar de planos, de partir a carcaça, de partir da carcaça. Ganhar novos ares, novos sexos, novos fazeres. Nada de novo encanta, mas é preciso se encantar. Nada do passado volta, resta ali, por mais triste que seja se despedir dessas coisas.

Volto amanhã. Não sei. Quem sabe.

sábado, 17 de março de 2012

Corte.

As primeiras palavras de D. Mirinha, além do formal, foram sobre os redemoinhos. "Tem que saber para que lado eles vão pra poder cortar."
Ali. Fortaleza. Joaquim Távora. Antônio Furtado, uma casa além da 161. Só disso que sei.

***

Atrás de mim [dava pra ver do espelho], uma pequena janela, daquelas amplas, largas e brancas, símbolos de trinta ou vinte anos atrás do Joaquim Távora, uma luz de fim de tarde que tardava em perder da sua beleza, uma sala improvisada. Ela, ali, com uns óculos grandes, respiração forte, e uma atenção meio caseira, materna. Pouco profissional. Nem me preocupava em lhe dizer o corte, queria que ela o identificasse, o escolhesse. Queria que ele afetasse meu cabelo e minha imagem, uma marca. Mas a roupa dela me inquietava, o rosa da blusa me chamava atenção. E um olhar cuidadoso que buscava pra que lado meus quatro redemoinhos escapavam. As mãos eram pesadas, mas como mãos pesadas de mãe sabem tocar, sem muito carinho, mas com afeto. Ali, não havia pretensão, havia um corte, uma relação, um desprendimento.

***

Você usa mais pra cima, ela perguntaria mais tarde, Quando ele está curto, sim. Como estava naquele momento. Por uma hora, me senti parecendo o Tintin, com aquele topete ondulado, ela fazia parecido com isso, se aproveitando do meu redemoinho da frente. Vi que, melhor que um pente, eram aquelas escovas de cerdas grossas. Agradeci a D. Mirinha, e penso em voltar lá quando meu cabelo incomodar de novo.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Um. Às vezes, mais dois. Mais um. Um.

Um. Às vezes, mais dois. Mais um. Um.

***

Aqui em casa, é meio assim. Um. Às vezes dois. Por vezes, mais um. Ou um de novo. Esse é o momento de aprender a ser um. Pode ter mais, mas sempre, dormindo ou acordado, um. Um que decide, que faz, que se faz. Ser um. Ser um não é egoísta. É aprender a se defender, a se ter, a se dar também. Ser um é também se dar sem se entregar.

***

Comprar um filme pra fotografar. 
Vai ser um bom momento.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Espelho, chão, sexo e dor


Agoniado, sentou-se só, no chão, em frente ao espelho, que estava apenas escorado em algumas caixas de papelão com livros, no quarto de trás do apartamento. A pouca luz, fraca, deixava pouco a ver de seu rosto, que andava inchado por aqueles dias. Sentou-se como criança, em frente de si mesmo, em frente à própria imagem.
Ali pôde perceber durante alguns dias que a dor que sentia não era plena. Surtava alto, subia as paredes, mas ali estava ele, em frente a seu corpo, seu corpo material, inteiro, um rosto que não reconhecia a si mesmo, nas suas ações e decisões. É como se o acompanhasse, em seus olhos, o olhar de outros, de outrem, de pessoas mais velhas, que passaram na sua vida e lhe marcaram de uma maneira ou outra. Via-se ainda criança, por mais que ali, em frente ao espelho, entre as pernas, se protuberasse uma série de pêlos. Era velho, tinha barba, mas carregava consigo, nos espaços que ocupava, o olhar, a avaliação, a aprovação dos outros. E, por isso, não conseguia viver sozinho, solitário. Precisava conversar, beber, sair, namorar, para esquecer que carregava tantos olhares e anseios. 



***


Se o telefone tocasse, possivelmente, seria ele. Gostaria e ao mesmo tempo não, que não fosse ele quem telefonasse. Gostaria que outras pessoas, amigos, telefonassem, e que se desacostumasse com os telefonemas dele. Telefonemas de bom dia, para falar besteira, para passar o tempo, para dar boa noite, para mandar abraço, para mandar beijo, para dizer que gosta muito, para dizer que ama, para resolver compromissos, pensar projetos, averiguar a vida do outro, com quem está e saiu, se vai ou não para casa, reclamar da vida, reclamar do outro na vida, ser grosso, brigar só para depois ligar novamente e pedir desculpas, e ligar mais vezes. E isso porque eram ex-namorados.
Ainda assim, deixou que a ansiedade o tomasse: a espera pelo seu telefonema. Outrora, havia já tomado a corajosa decisão de deletar o número do ex-parceiro do celular, para que nunca mais pudesse telefonar. Ora, meio turno depois, ia até a lista de últimas chamadas, e lá figurava o bendito número. Bastava apenas editar e salvar – novamente – na sua lista de contatos. Feito!



***


E se dissesse que ainda o amava? Enfim, já havia dito isso uma porção de vezes, ele sabia, se quisesse, já teria voltado. Mas então, o que fazer, se não fazia mais sentido repetir que o amava? Bastava considerar-se, de corpo e alma, solteiro, ir à Parada (Gay) não com receio de ver o amigo com seu novo amigo amante, mas para conhecer outras pessoas, outros homens, fazer novos amigos. “Atoro fasser amissades”, parafrasearia sua amiga russa, que viera à cidade no verão passado.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Chuva de Jambo


Em tempo de chuvas, jambo nas ruas. Seria de se pensar que o que chove não é água, mas jambos. Como se o que despencasse o tempo todo, como se aquilo que ouvíssimos bater no telhado de madrugada ou no zinco da cobertura da garagem fosse jambos, um grupo de jambos, uma colméia de jambos, meteoros de jambos, que exalam no ar um cheiro doce e vermelho, e cujas polpas, pisadas e amassadas nos pontos de ônibus e calçadas de frente de casa, formam um tapete branquíssimo-avermelhado-com-pitadas-de-verde-das-folhas-caídas.
Se nossa lógica analisa, reflete e observa as ações humanas e da natureza através de causas e consequências, se lemos os acontecidos através das marcas por eles deixadas, afirmo e reitero que choveu jambo na rua de cima da minha casa.